Moça donzela, desperta paixão, esquenta alma,levanta o moral, são alguns dos vários nomes pêlos quais
a cachaça é carinhosamente chamada pêlos brasileiros. Os
portugueses,motivados pelas conquistas espanholas no Novo Mundo, lançaram-se
ao mar na vontade da exploração e na tentativa de tomar posse das terras
descobertas no lado oeste do Tratado de Tordesilhas: Ilha de Vera Cruz -
porque acreditavam ser uma ilha, Terra de Santa Cruz - quando perceberam
ser um continente e, finalmente, por notarem que aqui árvores de
pau-brasileram abundantes, chamaram de Brasil.
As primeiras referências à origem da aguardente de cana-de-açúcar - atualmente
a segunda bebida predileta entre brasileiros, alemães e paraguaios -
preconizou-se em um intenso período em que os acontecimentos do Novo
Mundo desenhavam a cultura e as raízes do Brasil como nação e acabou
por fundir-se à sua própria história, por ser uma bebida eminentemente
brasileira. Sua importância, além de cultural é econômica e política:
o beber eproduzir
cachaça invadiu todas as esferas da vida privada e publica do país.
Existem muitas versões sobre o surgimento da cachaça,
entre as quais algumas merecem maior destaque.
Uma delas remete sua origem aos primórdios do século XVI, quando
o primeiro núcleo de
colonização portuguesa trouxe a cana-de-açúcar para o Brasil, vinda da
Ilha da Madeira, em
Portugal. Esse núcleo - criado em 7532
por Martim Afonso de Souza - instalou os primeiros engenhos em São
Vicente, no litoral de São Paulo. Historiadores relatam que os portugueses, para amenizara distância da terra
natal e da
bagaceira da uva - típica de Portugal, improvisavam uma bebida com a
substância sólida residual do caldo de cana, conhecida como borra
ou melaço, usada para amaciar a carne do porco-do-mato, animal da
família dos suínos, característico da América do Sul. Outros
relatam que o surgimento do destilado tenha ocorrido quando
um escravo, que trabalhava na moenda de um antigo engenho, pela
primeira vez, provava a espuma do caldo fermentado da cana-de-açúcar
denominada cagaça - que mais tarde evoluiria
para o nome cachaça.
O português Sá de Miranda cita a cachaça nesta época ao escrever uma carta versificada ao amigo
António Pereira:
"AH não mordia a graça/ eram iguais os juizes;/ não vinha nada da praça,/ ali, da vossa cachaça!/ ali, das vossas perdizes!"
No início, a cachaça era uma espuma da caldeira
em que se purificava o caldo de cana a fogo lento e, na metade do século
XVI, a bebida passou a ser produzida em alambiques.Até a metade do século XVII a cachaça tornou-se moeda corrente para compra de
escravos da África.
Alguns engenhos passaram a dividir a atenção entre o açúcar e a
cachaça e, quase todos, forneciam a bebida aos escravos, pela manha,
para que o trabalho rendesse melhor.
Em Minas Gerais, após a descoberta do ouro, a
cachaça
amenizava a temperatura da população vinda de todas as partes do
país para as montanhas frias da Serra do Espinhaço. Dizia-se que
podiam passar mal vestidos e mal-alimentados, mas jamais sem um gole de aguardente de cana-de-açúcar.A Corte portuguesa, incomodada com a queda
do comércio da bagaceira e do vinho português na colônia, alegou
que a bebida brasileira prejudicava a retirada do ouro das minas.
Proibiu várias vezes a produção, a comercialização e até o
consumo da cachaça. Sem resultados, a metrópole portuguesa
resolve taxar o destilado, criando vários tipos de impostos. Conseqüentemente
em 1756a aguardente de cana-de-açúcar contribuiu para a reconstrução
de Lisboa, abatida por um terremoto no ano anterior. Outra
parte do dinheiro arrecadado, a Corte utilizou
para a manutenção das Universidades de
Lisboa e Coimbra, através do chamado subsídio
literário.O nativismo e o amor a terra brasileira se formava firmemente caracterizando-se símbolo
dos ideais de
Uberdade e de resistência à dominação portuguesa. Os
brasileiros sentiam-se oprimidos pelas constantes imposições e não podiam mais aceitar as ordens impostas por
Lisboa. A aguardente
de cana-de-açúcar passa a ser o símbolo da democracia. Dos
conjurados mineiros (século XVIII) e revoltosos pernambucanos
(século XIX), até a independência, proclamada por D. Pedro l.
Brindar com a cachaça significava lutar contra a opressão
colonial, saudar com vinho ou outra bebida significava alinhar-se com
o lado português.
No século XX, a aguardente tornou-se mais
popular
e se aperfeiçoou em qualidade, com a melhoria das técnicas de sua
produção. A típica bebida brasileira passou a ser apreciada por
todos. A cachaça atualmente, através de várias marcas
de alta qualidade, figuram no cenário nacional e internacional,
presentes nos melhores restaurantes e adegas residenciais pelo
Brasil e no exterior. E todo o bar que se preze serve da boa caipirinha:
a deliciosa mistura de cachaça, açúcar e limão.Talvez hoje não se escreva mais cartas versificadas,
mas a cachaça está presente de outras formas, como no carnaval do
Rio de janeiro, em que a escola de samba Imperatriz Leopoldinense,
rimou sua história nota 10.
Paraty, no interior do Rio de
Janeiro, também é famosa por sua bebidaa pinga. Segundo eles existe uma grande diferença entre a cachaça
e a pinga.Aprimeira é
destilada a partir da borra ou melaço da cana, ou seja,das sobras da fabricação do açúcar; a pinga é fabricada a
partir da garapa, do caldo da cana fermentado e destilado, depois da
fervura ë evaporação, que "pinga" na bica do alambique.
No século XVII
existiam 100 alambiques de pinga é 7 de produção de açúcar. Por este
motivo, o nome da cidade Paraty incorporou ao nome da bebida. Era comum
pedir uma "Paraty" nos bares e botecos, quando se queria beber
uma pinga ou cachaça, fosse ela fabricada lá ou não.
A fama da cidade
chegou a inspirar o samba Camisa Listrada, de Assis Valente, composto em
1937 e imortalizado na voz de CarmemMiranda :
''...vestiu uma Camisa listrada e saiu por ai.
Em vez de tomar chá com torrada ele bebeu Paraty..."
Menos conhecida, porém muito significativo é o textos de Dias Gomes,
através de um dos personagens da peça O Pagador de Promessas.
"Bom dia, Galego amigo! Dia assim eu nunca vi, para saudar Iansã,
Não
repare eu lhe pedi: Me empreste por obséquio dois dedos de parati."